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INTERFERÊNCIAS DO TURISMO À DESIGUALDADE SOCIAL BRASILEIRA



EMERSOM FERREIRA DE FRANÇA (AUTOR)

JANAÍNA DOMINGUES (ORIENTADORA)

UNIVALI - UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ (INSTITUIÇÃO)


RESUMO: Verifica-se que o turismo no Brasil é um reflexo da concentração socioeconômica do país, não sendo uma atividade acessível para todos. Com isso, o presente trabalho visa problematiza-lo perante às desigualdades sociais através do resgate histórico dos deslocamentos humanos e o seu significado à humanidade. A partir deste contexto surge o questionamento alvo deste estudo que é: Em que contexto e em que medida a desigualdade e exclusão social se relacionam ao turismo? Para responde-lo, definiuse o objetivo geral: Evidenciar como a desigualdade social interfere no desenvolvimento do turismo. Para tanto, segue-se a metodologia da pesquisa bibliográfica. Obteve-se o resultado de que o turismo estabelece uma relação dicotômica com a desigualdade social, onde a geração de empregos à comunidade que reside no destino não é suficiente para torna-lo mais acessível, sendo necessário para tanto, a integração com as demais áreas sociais para buscar melhores políticas de nivelamento.


Palavras-Chave: Turismo. Desigualdade Social. Acesso



1 INTRODUÇÃO

Viajar é uma das principais atividades relacionadas às férias escolares e do trabalho, porém, ainda é algo relativamente caro, assim, a pratica é dificultada às classes populares. Dessa forma, o turismo no Brasil é um reflexo da concentração socioeconômica e da desigualdade social do país, não sendo uma atividade acessível para todos. O ideal seria um turismo democrático, onde todos tivessem a oportunidade de conhecer novos lugares, novas culturas e realizar esse intercâmbio com meio, para assim, crescer como cidadão. Porém, em um modelo econômico concentrador de renda e excludente, como aponta Cruz (2001), o turismo assume a mesma característica, reproduzindo como qualquer outra atividade econômica as contradições do sistema. Brasileiro, Medina & Coriolano (2012), também demonstram que o turismo realizado no padrão capitalista de produção não se diferencia das demais atividades econômicas, servindo a acumulação, reproduzindo o modelo de consumo ao se apropriar do lazer e do tempo livre. Autores clássicos como Karl Marx, Max Weber, Jean-Jacques Rousseau, Joffre Dumazedier, resgatam em suas obras as diferentes abordagens da relação do trabalho e do ócio em distintas épocas, desde o Egito, Grécia e Roma Antigo, passando pelo feudalismo, iluminismo, até o capitalismo, onde essas relações se tornaram ainda mais complexas com a luta de classes entre burguesia e proletariado. “Embora o número de pessoas que utilizam os equipamentos turísticos esteja aumentando no mundo e no Brasil, percebe-se que esta atividade ainda está restrita a uma parcela da sociedade brasileira privilegiada economicamente, devido a vários fatores, mas principalmente pelas desigualdades sociais” ( OLIVEIRA; MACEDO, 2010, p.19). Essa realidade já é diferente em alguns países, onde viajar é considerado algo acessível à população. Segundo dados do Skyscanner (2020), na Europa e América do Norte, regiões que usufruíram primordialmente da industrialização e assim conseguiram alavancar as suas economias, por exemplo, um cidadão pode arcar com os custos básicos de uma viagem nacional de caráter econômico com menos de 5 7 dias de trabalho. Percebe-se que há uma estrutura sistêmica baseada no low-coast1 , que possibilita a inclusão, impulsionando a atividade turística. No Brasil, além do alto custo de uma viagem, fator que legitima uma pequena parcela da população usufruir dos benefícios intangíveis da atividade turística, o brasileiro em muitas regiões não possui acesso à infraestrutura básica de lazer. Em muitos bairros e cidades, por exemplo, há carência de praças, parques, ginásio de esportes, cinema, centros culturais, teatros e etc. O lazer também não é incentivado nas escolas, por falta de infraestrutura, muitas crianças e adolescentes não possuem escolha a uma diversidade de esportes ou atividades extraclasse. Assim, verifica-se a formação de cidadãos que não sabem como bem aproveitar o ócio. Não obstante, as desigualdades sociais estão relacionadas a uma maior incidência da violência e além de prejudicar a sociedade como um todo, afasta de uma localidade a demanda turística. Portanto, um destino com grandes atrativos pode não ser escolha de visita se for associado à insegurança. O estudo do turismo, de acordo com Beni (2019), divide-se em duas grandes áreas: turismo receptivo e turismo emissivo. Com isso, de acordo com Coriolano (2012), entende-se que o turismo quando relacionado à desigualdade social, também causa impactos à comunidade local. Porém, quando bem planejado nas destinações turísticas, pode ser fonte de melhor distribuição de renda. O turismo pode contribuir decisivamente para o desenvolvimento sustentável e para a inclusão social porque agrega um conjunto de dimensões favoráveis à solidariedade e à integração social. Em primeiro lugar, pela sua própria natureza, o turismo opera pela ruptura do isolamento, provocando o contato entre diferentes culturas e ocasionando interações de múltiplos e variados atores. Com isso, propicia o conhecimento e a valorização de determinados ambientes e comunidades, estimulando o respeito e o interesse pela sua preservação (RUA, 2006, p. 17). Nesse cenário, consolida-se a necessidade de analisar às desigualdades socais e sua relação ao turismo brasileiro. Com isso, levantou-se a pergunta de pesquisa: Em que contexto e em que medida a desigualdade e exclusão social se relacionam ao turismo? Para responde-la, optou-se por seguir à metodologia de pesquisa 1 Modelo de negócio no qual companhias aéreas reduzem os custos para ofertar passagens com preços menores, o intuito é de abranger uma maior parcela de mercado. Passageiros sensíveis ao preço são o segmento de mercado dessas empresas (RODRIGUES, 2012). 8 bibliográfica, com abordagem qualitativa a partir de conteúdo disponível em livros, revistas e plataformas online. Definiu-se como objetivo geral da presente pesquisa: Evidenciar como a desigualdade social interfere no desenvolvimento do turismo. Como principal dado, obteve-se que a relação entre desigualdades sociais e turismo é dicotômica, se por um lado o turismo pode gerar empregos e prover renda básica para muitos trabalhadores das localidades, por outro, ser restrito apenas às classes mais elevadas faz com que a atividade também deturpe a realidade, gerando ainda mais desigualdades socioespaciais. Assim, esse trabalho está organizado em 4 partes, sendo elas: 5.1 Sociedade, lazer e turismo: igualdade e desenvolvimento; 5.2 Estratificação social: Oportunidades de acesso ao lazer e ao turismo; 5.3 Turismo perante à desigualdade social brasileira e 5.4 Análises cientificas à convergência entre turismo e desigualdades sociais Em 5.1, apresenta-se a evolução histórica da sociedade, atribuindo as suas relações aos modos de lazer e turismo vigente em determinado momento histórico. Já em 5.2, trabalha-se o conceito de estratificação e o seu impacto na sociedade moderna. No tópico 5.3, constrói-se através dos autores estudados as limitações e oportunidades do turismo na sociedade brasileira. Em 5.4, apresenta-se alguns dos autores que contribuíram ao entendimento das desigualdades sociais e a sua relação com o turismo.



2 JUSTIFICATIVA

A desigualdade social, consolida-se como um assunto amplamente estudado por teóricos das ciências sociais, clássicos como Aristóteles, Hobbes, Locke, Rousseau, Jeremy Bentham, Hume, Kant, Smith, Tocqueville, Marx, bem como pensadores contemporâneos continuam contribuindo através de suas obras à questões como igualdade, combate à pobreza, e a construção de um Estado de Bem-Estar Social (COUTINHO, 2017). Tal estudos norteiam a adoção de políticas públicas que visam atender às classes menos favorecidas, contribuindo a construção de uma sociedade mais igualitária. O turismo, como atividade econômica e que se pauta nas premissas do desenvolvimento sustentável, também tem a responsabilidade de melhorar a qualidade de vida da população, visando reduzir as desigualdades sociais e ampliar o acesso à cultura e infraestrutura de lazer. Nesse sentido, ainda há carência de estudos que remetam, por exemplo, às formas como o turismo pode auxiliar na melhor distribuição de renda nas comunidades locais, bem como, de que maneira a pobreza e a exclusão social impactam no desenvolvimento do turismo. Dessa forma, busca-se através da presente pesquisa, contribuir à temática. Vive-se um bom momento para o desenvolvimento de pesquisas nesta área, ainda mais tendo em vista os desafios que se colocam para a área face às novas conjunturas econômicas e geopolíticas que afetam tanto os países que têm tradição neste campo, como aqueles nos quais se verificam iniciativas pontuais – que se veem constantemente ameaçadas pelo risco da descontinuidade (ALMEIDA, 2016, p.143). No Brasil, segundo dados do Ministério do Turismo (2017), 44% (quarenta e quatro por cento) da população brasileira nunca realizou turismo dentro do país. Segundo Max Beltrão, ex-ministro do turismo, tal número representa um grande potencial de crescimento. Levando-se em consideração que 94% da população tem interesse em viagens, segundo dados do Panrotas (2019), verifica-se que muitas pessoas não viajam por falta de renda. Assim, uma melhor distribuição de renda à sociedade é de suma importância ao desenvolvimento do turismo, visando possibilitar mais pessoas viajar e a diminuição dos índices de criminalidade. Dessa forma, dá-se a importância de os estudos do turismo também contribuir para o desenvolvimento de ações que visam tornar a sociedade mais igualitária. 10 Levando-se em consideração que o desenvolvimento de ações socialmente sustentáveis não impacta apenas as pessoas de mais baixa renda, uma vez que, assim que colocadas em prática, acabam por favorecer a vida de toda a população, o turismo tem melhores perspectivas de desenvolvimento se assumir em suas políticas públicas medidas de sustentabilidade social. Segundo Hunter (2016), o turismo também se apropria de significados e símbolos para construir uma imagem turística, assim, uma pessoa quando viaja busca não apenas estar em contato com os aspectos tangíveis ligados ao destino, mas também aquilo que ele representa. Dessa forma, indicadores sociais são por si só um atrativo. Assim, para o desenvolvimento sustentável do turismo, é necessário políticas públicas que melhor distribuam a concentração de renda existente no país, através de investimentos em educação, cultura, infraestrutura, proteção alimentar e etc, garantindo às famílias melhor oportunidades de mobilidade social. Porém, além do exposto, o turismo em si possui diversos impactos negativos quando não bem planejado. Com isso, além de políticas de nivelamento, que ofertem melhores condições educacionais e oportunidade de mobilidade nos estratos sociais, o presente trabalho também visa ressaltar a necessidade de ações especificas no que tange o setor turístico. Ações que ganham importância ao garantir a preservação do patrimônio históricocultural e do meio ambiente, além de um desenvolvimento ordenado da atividade, o qual deve evitar a gentrificação e promover a integração com a comunidade local. Com isso, espera-se que o turismo seja utilizado como ferramenta do progresso e uma indústria forte e solidificada na sociedade brasileira, atuando para o desenvolvimento da nação. Portanto, quanto mais socialmente desenvolvido um destino e quanto melhor valorizado os seus aspectos culturais únicos, melhor será o seu diferencial turístico. Assim, o presente trabalho ganha importância ao se dirigir a um planejamento voltado à sustentabilidade, onde o turismo pode se desenvolver de forma coesa com o meio, sendo ferramenta de inclusão e acessível a uma maior quantidade de pessoas.


3 OBJETIVOS


3.1 Objetivo Geral:

• Evidenciar como a desigualdade social interfere no desenvolvimento do turismo


3.2 Objetivos Específicos:

• Estabelecer nexos entre o turismo e a desigualdade social;

• Trabalhar o conceito de estratificação e seu impacto na sociedade moderna;

• Discutir o turismo como atividade capitalista, responsável pela exclusão social;

• Descrever as análises cientificas à convergência entre turismo e desigualdades sociais.




4 METODOLOGIA

A presente pesquisa, desenvolveu-se no período correspondente aos meses de agosto a novembro de 2020, o processo de desenvolvimento desse estudo é baseado na metodologia da pesquisa bibliográfica. A referida consiste em contribuir ao conhecimento, utilizando-se de fontes estritamente secundárias. As quais são advindas de produções acadêmicas diversas como: teses, dissertações, monografias, entre outras, bem como artigos, sites e livros. A respeito dessa tipologia de pesquisa Severino (2007), diz: [...] registro disponível, decorrente de pesquisas anteriores, em documentos impressos, como livros, artigos, teses etc. Utilizam-se dados de categorias teóricas já trabalhadas por outros pesquisadores e devidamente registrados. Os textos tornam-se fontes dos temas a serem pesquisados. O pesquisador trabalha a partir de contribuições dos autores dos estudos analíticos constantes dos textos (SEVERINO, 2007, p.122). Sendo uma pesquisa estritamente de caráter bibliográfica a população deste estudo corresponde a estudos relacionados à temática do turismo, lazer e das desigualdades sociais. Dessa forma, a coleta de informação bem como de dados foi proveniente de diversas publicações, dentre as quais é possível citar: Plano Nacional de Turismo 2018 – 2022; Diretrizes para o desenvolvimento do Turismo Social no Brasil; Turismo social: reflexões e práticas no Brasil, e demais obras. A análise e a interpretação dos resultados elaborados posteriormente a coleta de dados e informações foi produzida mediante diálogo pautado na análise dos discursos de autores, sendo os principais desse objeto de estudo: Diogo Coutinho; Amaral Junior; Max Weber; Michel Ferreira, Marcelo Almeida, entre outros. Sobre análise de discurso, entende-se A análise do discurso não busca uma verdade nuclear do signo, pois é contra a imanência estruturalista. O que ela pretende é reconstruir as falas que criam uma vontade de verdade científica em certo momento histórico. Busca-se verificar as condições que permitiram o aparecimento do discurso. Explicar por que tomou esse sentido e não outro. Sempre relacionando o linguístico com a história e com o ideológico (PAULON; NASCIMENTO; LARUCCIA, 2014, p. 30). Coutinho (2017) ressalta que a igualdade, que é indissociável de sua outra face a desigualdade e se caracterizam como temas complexos e multidisciplinares, compostos por ideologias e crenças políticas, com isso é imprescindível uma metodologia consistente. Portanto, o autor sugere abordar a temática sob dois enfoques: um mais filosófico, abstrato e atemporal e outro mais aplicado e empírico. 13 Em suma: enquanto o primeiro campo teórico se ocupa de aspectos mais abstratos da igualdade, segundo a observa como um conjunto de medidas de políticas pública destinado, entre outro, aos objetivos de combate à pobreza e redução da distância que separa os ricos dos pobres em uma certa sociedade. No segundo campo trabalham, em geral, cientistas sociais de viés aplicado, bem como gestores e administradores públicos diretamente envolvidos nessas políticas. De modo muito simplificado, sua abordagem segue métodos empíricos – estudos de casos, técnicas quantitativas, exercícios estatísticos, comparações entre países, contextos e etc. (COUTINHO, 2017, p.4). Dessa forma, seguiu-se no presente trabalho uma abordagem que problematizou as desigualdades em relação ao turismo, aplicando-se conceitos filosóficos e dados quantitativos de forma consonante, assim, buscou-se apresentar a veracidade dos fatos e evidenciar a relação das desigualdades no desenvolvimento do turismo. Na Figura (01), apresenta-se de forma mais detalhada e sintética as etapas que levaram ao desenvolvimento da presente pesquisa.



5 DIÁLOGO COM OS AUTORES

A presente pesquisa obteve seu suporte teórico a partir do diálogo com os autores, com isso, a fundamentação teórica se consolida como a estrutura do trabalho, sendo a fonte para atingir os objetivos pré-estabelecidos. A metodologia possibilitou desenvolver 4 tópicos de maior pertinência, os quais serão abordados ao longo desse capítulo.


5.1 Sociedade, lazer e turismo: igualdade e desenvolvimento

Lazer e turismo são fenômenos sociais, portanto, compreende-los está intimamente relacionado a conhecer os modos e costume de uma sociedade em um determinado tempo. Assim, para entender a importância do turismo e do lazer, é imprescindível estudar o modelo econômico, político e cultural de uma sociedade. Partindo-se do pressuposto que a sociedade está em constante transformação, as práticas do lazer o do turismo se transformam mediante os acontecimentos e evoluções históricas. As relações entre sociedade, trabalho e lazer no ocidente, ajudaram a entender os conceitos de desenvolvimento e seus impactos sociais. De acordo com Amaral Junior (2008), o turismo, como atividade social, tem as suas raízes aos primeiros deslocamentos humanos. Em uma época onde o ser humano não dominava as técnicas da agricultura, do fogo e não possuía recursos para enfrentar as intempéries climáticas, as oportunidades de sobrevivência estavam atreladas à migração. Dessa forma, deslocar-se pelo globo em busca de alimento e abrigo, garantiu a sobrevivência dos grupos nômades do paleolítico. Com o domínio do fogo, da agricultura e dos animais, foi possibilitado a sedentarização dos seres humanos, o que tornou, com o tempo, as relações sociais mais complexas. De acordo com Carvalho (2018), o desenvolvimento de novas técnicas voltadas a facilitar a extração de recursos levou a um excedente da produção, surgindo, assim, também uma parcela da população que não precisa produzir para se manter, levando a uma divisão social e econômica do trabalho. Nesse contexto, apenas alguns terão que trabalhar para garantir a sobrevivência de todos e quando esse excedente produzido é apropriado por um determinado grupo de pessoas, surge as 15 desigualdades. Presencia-se esse processo desde o surgimento dos primeiros povoados e cidades. Na cidade com o melhor conjunto de normas e naquela dotada de homens absolutamente justos, os cidadãos não devem viver uma vida de trabalho trivial ou de negócios – esses tipos de vida são desprezíveis e incompatíveis com as qualidades morais –, tampouco devem ser agricultores os aspirantes à cidadania, pois o lazer é indispensável ao desenvolvimento das qualidades morais e à prática das atividades políticas. (ARISTÓTELES in: VAN ACKER, 1997 p. 33). De acordo com Van Acker (1997), na Grécia Antiga, socialmente o trabalho não era visto como algo dignificante, com isso, os escravos se ocupavam das obrigações laborais, enquanto o homem livre se dirigia à política. Havendo uma grande distinção de acordo com o nível de fortuna, idades e local de residência: polis ou campo. De acordo com Amaral Junior (2008), foi na Grécia Antiga em 776 a.C., que foram realizados os primeiros Jogos Olímpicos e com eles novas formas de deslocamentos foram promovidas, como as viagens em busca da cura pela descoberta das propriedades das águas minerais. Estima-se que alguns destes jogos tenham atraído até 200.000 pessoas. Para Coutinho (2017), na Grécia Antiga, mesmo sob um regime escravocrata, o conceito de igualdade já era objeto central de reflexão. Porém, até os dias atuais com um complexo sistema judiciário, ainda não há consenso se todos realmente são iguais sequer perante a lei. As sociedades foram se desenvolvendo a partir dos deslocamentos humanos, da conquista de novas terras e povos e suas transformações culturais, sendo um processo importante na constituição das práticas modernas do lazer. Enquanto a civilização grega era relacionada ao pensamento e a filosofia, por exemplo, segundo Roscoche (2016), os romanos possuíam características muito funcionais e práticas, voltadas para a política, conquista e comércio. Os grandes espetáculos circenses vividos na época do Império Romano, bem como as lutas em arenas romanas, atraiam inúmeras pessoas, com o propósito de entretenimento e recreação. Provavelmente, deve-se aos romanos a origem das viagens de lazer (AMARAL JUNIOR, 2008, p. 36). Assim, nesse contexto, o lazer ganha um sentido de fuga à realidade, onde se criam muitos locais voltados ao ócio como as casas de banho, teatros, anfiteatros voltados a espetáculos culturais ou competições esportivas, que compõe parte da chamada “política de pão e circo” romana, onde o lazer em alguns momentos foi utilizado como distração aos assuntos políticos. 16 “Falar da política de pão e circo no contexto histórico do império Romano, remete a construção do Coliseu, cuja consequência política pode ser observada como um elemento de alienação” (HUBNER, 2018, p. 96). Dessa forma, verifica-se que os homens durante a história não pensaram em igualdade como sinônimo de desenvolvimento, mas sim, em domínio, utilizando-se, para isso, de práticas socais como o lazer. Percebe-se em Coutinho (2017), que o domínio muitas vezes pôde ter ocorrido porque o discurso sobre igualde, que já foi objeto de reflexões conceituais e concretas, ainda não possui um consenso em sociedade sobre a sua finalidade. Seja a igualdade como seu próprio fim ou como meio para alcançar outros fins, “como liberdade, autonomia, emancipação, felicidade ou o bem-estar coletivo” (COUTINHO, 2017, p.2). Portanto, os seres humanos ainda lutam pelo acúmulo e não pela distribuição, pois falta a essência de união, de singularidade. A igreja no período medieval, tentou unir todos através da religião, a partir da ideia de um Deus único (ROSCOCHE, 2016). A ideia de algo em comum entre povos, no caso Deus, durante um primeiro momento, auxiliou na união dos homens. Para filósofos católicos da idade média, a questão é potencializada pela norma religiosa do Amor entre os homens. Como amar os escravos e continuar a escraviza-los? A “solução” para o impasse, inteligentemente ideológica, apresenta-se na distinção entre igualdade humana e divina: Assim, perante Deus, todos os homens são iguais, embora sua situação terrena seja tão díspar. E, além disso, cria-se a “grande consolação”: depois da morte, os que mais sofreram terão recompensa eterna (MICHELOTO, 1997, p. 46). A Igreja Católica agiu como uma forte instituição, moldando o pensamento na idade média. Observa-se que não houve respeito às singularidades e à liberdade das pessoas. Segundo Roscoche (2016), nesse período atividades como festas, jogos, espetáculos e danças foram consideradas um obstáculo para a purificação da alma. De acordo com Abreu e Almeida (2016), também é possível se constatar a mudança na significação de trabalho, que foi progressivamente deixando de ser considerado como algo que aprisiona o homem para ser tido como determinação divina. A concepção de ócio da época propôs como prática de lazer: a oração. Alguns séculos depois, os deslocamentos humanos novamente desempenham grande importância para mudanças sociais. De acordo com França (2018), as 17 chamadas cruzadas promovidas pela igreja e também o comercio marítimo que se desenvolvia na região europeia, favoreceram o contato com os povos árabes, trazendo novos conhecimentos da matemática, astronomia, artes e etc. Dessa forma, o pensamento crítico, as artes e a vida em sociedade foram amplamente afetadas por essa troca cultural. Na baixa idade média, a igreja católica já não satisfazia as necessidades e questionamentos de cientistas das mais diversas áreas do conhecimento e da burguesia em ascensão. Assim, todos queriam liberdade para pensar e agir. De acordo com Coutinho (2017), entende-se que a igualdade detém hoje tamanha importância como a própria noção de liberdade. A reforma protestante acaba auxiliando a minar a hegemonia da Igreja Católica sobre as questões econômicas e políticas ao enaltecer a ideia de acúmulo de riquezas por meio do trabalho árduo e honesto, essa corrente de pensando ficou conhecido como a “ética protestante”. (ROSCOCHE, 2016). A ética e a moralidade, de acordo com Coutinho (2017), relacionam-se a igualdade no que tange a um comum foco no bom convívio entre os seres humanos. À filosofia política, sociologia e economia, a igualdade se relaciona a distribuição de bens, riquezas e oportunidades. Porém, nessa época o interesse maior já era o acúmulo. E é nesse contexto mercantilista em ascensão que as terras à leste da Europa são englobadas em um processo de exploração, dessa forma, Pindorama (nome dado pelos nativos ao Brasil), em primeiro momento é utilizado como fonte de recursos para extração de pau-brasil. Os índios foram incluídos nessa relação ao negociarem com os Portugueses, onde derrubaram árvores e armazenaram madeira em troca de alguns produtos e utensílios (ALMEIDA, 2017). Os povos nativos do Brasil, por viverem em áreas cercadas pelas florestas e pelo mar, percebe-se que a prática de lazer se dava através do contato com a natureza. Vale ressaltar que os diferentes povos indígenas se organizavam de forma complexa e hierárquica, com demarcação própria de território e com tribos inimigas. Durante um período histórico, guerras entre os índios foram incentivadas pelos Portugueses e as tribos derrotadas, foram pegas à escravidão. Diferentemente das comunidades primitivas, nas quais os indivíduos possuíam como objetivo comum a sobrevivência coletiva, o surgimento da exploração do homem pelo homem institui as contradições e antagonismos 18 sociais que fundam a desigualdade social. Torna-se, assim, compensador escravizar seu semelhante (CARVALHO, 2018, p.142). Coutinho (2017) ressalta que cada ser humano é único, seja por expressão do fenótipo ou pelas questões da psique. Assim, a igualdade é indissociável de sua outra face, a desigualdade. Entretanto, em sociedade, deve-se buscar a “equalização” entre as pessoas, respeitando as suas diferenças. E a escravidão que já era uma prática em decadência nas sociedades europeias desde o século X, volta a ser utilizada massivamente nas américas, sendo as suas consequências presentes na realidade social brasileira até os dias atuais. Almeida (2017), aponta que o trabalho escravo foi a alternativa mais viável para uma economia que visava a acumulação com um mínimo de investimentos de capitais. Assim, verifica-se que o Brasil, em sua formação já começou com uma grande desigualdade e com grandes barreiras para o seu desenvolvimento futuro. Os escravos negros africanos, foram e seus descendentes ainda são os maiores prejudicados dessa relação de acúmulo capitalista. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Pesquisas (IBGE, 2018), essa população compõe 55,8% da população brasileira. O combate às desigualdades sociais no Brasil tem sido objeto de estudiosos e formuladores de políticas públicas envolvidos no diagnóstico e na execução de medidas para sua redução. Entre as múltiplas formas de manifestação dessas desigualdades, a por cor ou raça ocupa espaço central nesse debate, pois envolve, em sua determinação, aspectos que estão relacionados às características do processo de desenvolvimento brasileiro, cuja dinâmica produziu importantes clivagens ao longo da história do País. Como consequência, a inclusão parcial das populações de cor ou raça preta, parda ou indígena no referido processo traduziu-se em maiores níveis de vulnerabilidade econômica e social, como demonstram diferentes indicadores sociais que vêm sendo divulgados continuamente pelo IBGE por meio de seus estudos e pesquisas (IBGE, 2020, p. online). O Brasil é um país construído pelos deslocamentos, por isso há uma grande pluralidade étnica e cultural. Porém, não há igualdade, pois grupos específicos tiveram suas possibilidades de desenvolvimento prejudicadas em detrimento da ascensão de uma elite branca que dominou o poder e construiu a história. Inclusive, até os dias atuais, é maioria na política e universidades do país. Ao turismo, verifica-se que os negros ainda são minoria na pratica da atividade, apesar de serem maioria da população no país. De acordo com Ferreira e Casagrande (2020), tal fato além de ser justificado por razões econômicas, as pessoas negras também 19 sofrem estigmas sociais e muitos acreditam que o turismo é uma atividade que não lhes pertence, já que, historicamente, o turismo lhes é uma atividade segregada. Dessa forma, constata-se por fatores históricos que a maior parcela dos desfavorecidos economicamente no país é a população negra. Dessa forma, há necessidade de discriminar esse grupo para melhor entender à desigualdade social no Brasil e assim conseguir buscar ações ao desenvolvimento de um turismo mais inclusivo e socialmente sustentável. Verifica-se que os deslocamentos humanos foram fator de diferencial e progresso em diferentes períodos históricos. Porém, na era moderna e contemporânea, a desigualdade atua como fator que controla o fluxo de indivíduos com base em suas classes sociais. Seja através da atividade turística ou com as rígidas leis alfandegárias, as quais inibem o deslocamento migratório de pessoas, isso, com o intuito de sustentar o sistema econômico vigente. Positivistas são a favor da ordem natural do progresso, sendo contra brutas revoluções para assim poder garantir a tendência das coisas, verifica-se que os deslocamentos são a ordem natural da evolução humana. As pessoas precisam se movimentar para se transformar e criar o novo.


Na Figura (02), apresentou-se uma ilustração dos principais tópicos abordados até o presente momento, onde se demonstra alguns exemplos dos deslocamentos humanos ao desenvolvimento social, mesmo que de forma dicotômica. Também, ressalta-se a influência da escravidão negra ao aprofundamento das desigualdades sociais e os impactos às práticas do turismo e até mesmo da migração na sociedade conterrânea. Com isso, acredita-se que o turismo deve ser defendido como forma de desenvolvimento social. Para Coutinho (2017), o termo desenvolvimento é visto de forma geral como algo essencialmente positivo e desejável, porém, não há consenso sobre o seu significado específico, sendo ainda mais complicado a interação e coordenação dos meios públicos e privados com o intuito de atingi-lo. Assim, a base para o desenvolvimento se mostra, muitas vezes, distintas e antagônicas. Dessa forma, objetivos como a redução da desigualdade e eliminação da pobreza se tornam complexos. Assim, no próximo capitulo, abordar-se-á as limitações dos indivíduos perante as desigualdades sociais ao acesso do lazer, turismo e cultura no Brasil com base em suas classes sociais, trabalhando-se o conceito de estratificação social.


5.2 Estratificação social: Oportunidades de acesso ao lazer e ao turismo

Uma grande sociedade é dividida em grupos menores, os quais apresentam características culturais em comum, como a língua, vestimenta, hábitos alimentares e etc. Porém, quando se observa que além de compartilhar hábitos culturais dados grupos também apresentam oportunidades limitadas de acesso aos recursos sociais, percebe-se que há uma divisão maior entre eles, uma estratificação. De acordo com Weber ( 1972, apud LEMOS, 2012), estratificação social é uma teoria da sociologia que estuda a heterogeneidade presente em uma sociedade. Pode-se dizer que a sociologia moderna trabalha com três grandes aplicações de estratificação, sendo elas: estamento, casta e classe. Em relação ao estamento, verifica-se que os grupos possuem normas mais rígidas para ascensão, como exemplo desse sistema, tem-se as sociedades militarizadas ou mesmo instituições como o exército ou determinadas a religiões, onde há regras internas fechadas para se participar desse grupo (LEMOS, 2012). 21 Já na casta o indivíduo tem a sua condição social definida por hereditariedade, não sendo possível a mobilidade social, como exemplo, cita-se a Índia. “Uma configuração histórico-estrutural particular explicável quando se acentuam categorias analíticas como religião, cor, raça, linhagem, hereditariedade, ocupação” (LEMOS, 2012, p. 117). Entende-se que em uma concepção de sociedade igualitária, todos devam ter acesso a recursos sociais de qualidade, onde o importante seja a formação dos indivíduos como cidadãos. Dessa forma, pode-se atingir outros objetivos primordiais, como: qualidade de vida, desenvolvimento social, tecnológico e econômico. Esse pensamento pode ser melhor representado na Figura (03).



O Brasil realizou importantes avanços para uma sociedade mais igualitária, mas ainda se verifica que ainda se há um longo caminho para se obter uma sociedade menos estratificada. Esses estratos podem ser entendidos sobre aspectos econômicos, políticos e culturais e definem melhores ou piores condições de aceso aos recursos educacionais, médicos, de segurança, de moradia, de renda, de lazer, turismo e etc. Quanto maior a posição dos indivíduos na hierarquia social maior é o seu poder aquisitivo e de usufruir de serviços e produtos, gerando desigualdades.


Figura 4: Modelo de sistema Estratificado

Fonte: Elaborado pelo acadêmico com base nos autores citados até o momento


A Figura (04), apresenta um modelo de sociedade estratificada com base na classe social dos indivíduos. De acordo com Moutinho (2015), também se presencia a divisão dos indivíduos por gênero e etnia. Portanto, verifica-se ainda que um homem branco, possui muito mais oportunidades do que mulher branca. A mobilidade entre os estratos fica ainda mais difícil quando se analisa as oportunidades de uma mulher, negra e pobre, ter acesso à universidade ou realizar uma viagem de lazer, por exemplo. 

Considera-se também, que nesse tipo de modelo, onde não há uma atuação sistêmica, toda sociedade acaba prejudicada, até mesmo aqueles que possuem mais oportunidades. Pode-se observar que fatores como qualidade de vida, desenvolvimento social, intercâmbio com o meio e desenvolvimento pessoal, por exemplo, tornam-se algo difícil de se adquirir quando a questão principal da vida dos indivíduos é o capital.

Tomando-se como base que cada indivíduo é um ser único, com uma forma diferente de vivenciar o mundo, com saberes e conhecimento de vida próprio, percebe-se que a segregação educacional se reflete como uma das maiores perdas para a humanidade, levando-se em consideração que os mais variados indivíduos, através do método cientifico, poderiam ser hábeis para gerar conhecimento, fator de diferencial e progresso humano.

De acordo com Carvalho (2018), a estratificação por classe está ligada aos meios de produção, onde há aqueles que trabalham para sua sobrevivência e aqueles que sobrevivem do trabalho dos outros através do controle dos meios de produção. Considera-se não somente a terra, mas todo e qualquer meio que permita a produção.

Dentre os impactos negativos aos desfavorecidos economicamente, Coutinho (2017) ressalta: redução na expectativa de vida, pela impossibilidade de aceso à métodos profiláticos e de tratamento médico, além da exaustão do trabalho; menor mobilidade social, considerando que as perspectivas de crescimento são limitadas; menos inovações, como nem todos tem acesso à educação e cultura muito conhecimento deixa de ser produzido; maior taxa de população encarcerada, considerando que a violência cresce nas camadas sociais desassistidas pelo estado;  entre outros.

Assim, o que faz dado indivíduo pertencer ou não a uma classe é o seu capital, pelo menos em tese, já que é evidente também a distinção sexual, além da diferenciação étnica e de nacionalidade dos indivíduos, causadas por processos de domínio territorial.

Abreu e Almeida (2016), explicam que o detentor dos meios de produção paga um salário muito menor em relação ao produto ou serviço produzido, de forma a gerar mais-valia, ou seja, lucro ao capitalista, representando tempo de trabalho não-remunerado.

Assim, o turismo trabalhado apenas como atividade econômica não auxilia no combate à desigualdade, mas acaba por perpetuar ainda mais. De acordo com Pastore (1976), o trabalho no modo capitalista gera alguma renda aquele cidadão que está em situação de vulnerabilidade econômica, porém, o produto do seu próprio trabalho gera grandes riquezas aos detentores dos meios de produção.

Dessa forma, segundo Cruz (2001), em uma sociedade pautada em uma economia capitalista voltado a concentração de renda, o turismo reproduz essas características, tornando-se, em muitos casos, excludente e perpetuador das desigualdades socio espaciais.

De acordo com Brasileiro, Medina & Coriolano (2012), as atividades econômicas realizadas no padrão capitalista de produção, servem a acumulação. Nesse contexto, o turismo não se diferencia, reproduzindo o modelo de consumo ao se apropriar do lazer e do tempo livre.

A desigualdade social existente no Brasil é responsável por um vão enorme entre os turistas e quem atende os turistas O descolamento de realidades é muito grande entre quem atende e quem é atendido. Muitas vezes o que um viajante gasta em um dia é suficiente para pagar as contas de todo um mês de alguém que está trabalhando para atendê-lo em determinado empreendimento (MEIRELLES, 2019, p. online).

Meirelles (2019), evidencia na prática o pensamento dos demais autores, demonstrando a diferença econômica entre aqueles que viajam a turismo e aqueles que trabalham no turismo. Levantando também a problemática da baixa remuneração paga pelo setor a seus colaboradores.

Dessa forma, entende-se que o turismo sem uma política de melhor redistribuição econômica não é fator de melhorias às desigualdades sociais e se caracteriza como uma atividade segregada, destinada aqueles que possuem condições de pagar pelos seus serviços.

De acordo com Oliveira Santos (2012), o nível de renda dos consumidores turísticos influencia a demanda. Sendo que consumidores com maior nível de renda tende a consumir mais dos produtos turísticos. Assim, considera-se que o consumo de viagens domésticas no Brasil é um produto normal, quanto maior a renda, maior a demanda. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Pesquisa (IBGE, 2019), 48,9% dos brasileiros justificam a não realização de uma viagem pelo motivo de falta de renda, conforme pode ser verificado na Figura (05). 


Figura 5: Motivos apontados para não realização de uma viagem

Fonte: IBGE, 2019


Segundo o Ministério do Turismo (2017), 47% das pessoas que possuem renda até 4 salários mínimos, quando viajam tem a intenção de ficar na casa de parentes. Enquanto que apenas 21% daqueles que recebem mais de 10 salários mínimos pretendem optar por essa modalidade de hospedagem. As classes inferiores também são maioria ao optar por viagens de automóvel e carro, ao invés do transporte aéreo.

Dessa forma, verifica-se que o fator renda modela a forma como as pessoas realizam turismo, além de coibir a atividade a uma parcela considerável de indivíduos. Portando, o fator renda desempenha uma retenção da demanda turística no Brasil, impactando o setor.

Não obstante, as classes econômicas não são privadas apenas à atividade turística no Brasil. Segundo uma Pesquisa do Instituto Locomotiva (2020), apenas 34% das pessoas que pertencem às classes inferiores possuem acesso aos espaços de lazer e cultura, como cinema, teatro e shows. Enquanto que esse percentual é de 60% para as classes A e B. Verifica-se também que os mais ricos podem destinar três vezes mais recursos a atividades de diversão e cultura. 

As populações mais carentes no Brasil também possuem dificuldade de acesso à infraestrutura básica de lazer nos seus bairros e cidades, como: Praças, teatros, museus, parques e etc. Segundo dados do Portal da Transparência (2020), percebe-se que as secretarias de esporte, lazer e cultura estão entre as que menor valor recebem dos repasses federais.

Coriolano e Vasconcelos (2014), apontam que o ócio se configura como uma ameaça ao capitalismo, associado à inutilidade e improdutividade. Porém, atualmente há um esforço maior para significá-lo. Mesmo com isso, ainda é possível se presenciar que nas escolas públicas, a base da sociedade, por falta de infraestrutura, as crianças não possuem escolha a uma diversidade de esportes e também não tem aulas de como bem aproveitar o tempo livre.

Outro fator claramente relacionado a desigualdade é o acesso à educação, especialmente nas áreas e que maior demanda por trabalhadores. Pessoas que tem acesso à educação são como regra, aquelas que se apropriarão de parcelas mais significativas da riqueza e pessoas que não tiveram acesso à educação não somente tende a ficar com parcelas reduzidas da renda, como também tendem, se isso não for revertido por políticas redistributivas, a transmitir a situação desprivilegiada para seus descendentes, num ciclo vicioso de reprodução de elites e mitigada mobilidade social. Pessoas com mais anos de educação ganham mais, obtém mais prazer em seu trabalho e em seu lazer tendem a ser mais saudáveis, tendem a se envolver menos em atividades criminosas e têm mais disposição para fazer trabalhos voluntários e a votar em eleições (COUTINHO, 2017, p. 3).

Entende-se que muitas crianças e adolescentes não possuem uma vocação nata aos estudos. Atividades culturais e esportivas poderiam ser utilizadas para despertar o interesse pela escola e diminuir a evasão, além de incentivar o desempenho dos alunos. Mas essa ainda parece ser uma realidade distante para a educação de jovens e adultos no Brasil. E assim, na realidade presenciada, verifica-se a formação de muitos cidadãos que não tem motivações aos estudos e que não sabem como bem aproveitar o tempo livre.

Desta forma, verifica-se que as desigualdades sociais ditam aqueles que terão acesso ao turismo, lazer, cultura, além de outros indicadores no Brasil. Não obstante, são a principal causa da violência e da desordem social. Além de prejudicar a sociedade como um todo, a violência pode afastar de um local a demanda turística, assim, um destino com grandes atrativos pode não ser escolha de visita se for associado à insegurança.

Dessa forma, presencia-se à complexidade do fenômeno turístico brasileiro perante às desigualdades sociais. Se por um lado como atividade capitalista o turismo não é fator de planificação social, por outro, muitas pessoas gostariam de ter acesso ao turismo, mas não fazem por conta do fator renda. Dessa forma, verifica-se a necessidade de pensar um novo turismo, mais inclusivo e que melhor se adapte a um novo modelo de sociedade, que busca a igualdade.

Dessa forma, no próximo capítulo, buscar-se-á resgatar a importância social do turismo e apresentar iniciativas que visam uma atividade mais inclusiva e acessível aos brasileiros, assim, auxiliando a mitigar as desigualdades e promovendo melhores níveis de desenvolvimento social ao país.   

 

5.3 Turismo perante à desigualdade social brasileira

De acordo com dados do Fundo Monetário Internacional (2019), o Brasil se consolida como o 9º (nono) maior PIB (produto interno bruto) na economia mundial. Fatores como grande contingente populacional, extensão territorial, disponibilidade de recursos naturais, desenvolvimento de tecnopolos e etc., são alguns dos parâmetros para se entender o porquê de o país ocupar essa posição.

Porém, para Brasileiro, Medina & Coriolano (2012), o PIB de um país não é indicador de bem-estar social, assim, não funciona como indicador seguro de desenvolvimento. Dessa forma, mesmo o Brasil tendo um PIB muitas vezes maior do que um país considerado desenvolvido, a qualidade de vida da população pode ser inferior.

Isso porque há no Brasil uma grande desigualdade social, onde uma parcela pequena da população concentra a maioria das riquezas do país, enquanto por outro lado, segundo o IBGE (2017), 52 milhões de brasileiros vivem com menos de $ 5,5 dólares por dia. Esse valor, convertido em reais no período de um ano, aproxima-se de R$ 9.200,00.

Se considerar o PIB per capta brasileiro, que é a quantidade de riquezas produzidas por um país em um ano dividida pelo o seu contingente populacional, cada brasileiro deveria ter uma renda anual de R$33.593,82 de acordo com o IBGE (2018). Porém, como visto essa realidade é historicamente divergente.

Em 2002, os pobres eram 38,4% da população, número cujo decrescimento foi contínuo até 2014,  quando  atingiu  seu  menor  patamar, 16,5%. Partindo  do  mesmo ano  de referência, 2002, a porcentagem de pessoas extremamente pobres no Brasil era de 7,4%,  chegando  a  2014,  momento  em  que  atinge  o  ponto  mais  baixo,  a porcentagem  de 3,3%.  Contudo,  houve  uma  inflexão  forte  na  trajetória  de diminuição  tanto  da  pobreza  como  da  extrema  pobreza,  as  quais voltaram a crescer. Em 2017, os extremamente pobres compunham 5,5% da população e os pobres 19,9%,  aumento  de 2,2%  e 3,4%,  respectivamente,  em  apenas  3  anos.

De acordo com Coutinho (2017), é essencial compreender que no Brasil, ao contrário de muitos países, a pobreza não se dá como resultado da escassez de recursos. O Brasil é um país rico, porém há muitos pobres e isso se dá, em grande parcela, a desigualdade represente no país.

Essa desigualdade, dentre outros indicadores, pode ser mensurada através do IDH (índice de desenvolvimento humano), que analisa o desenvolvimento de um país para além de seus atributos econômicos, abrangendo também indicadores como educação e longevidade. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNDU) da Organização das Nações Unidas (ONU), pauta-se em mensurar o desenvolvimento de um país através da qualidade de vida da população.

A ONU, através da Organização Mundial do Turismo (UNWTO), também auxilia no desenvolvimento de um turismo responsável, sustentável e de acesso universal. Oferece liderança e apoio ao setor de turismo na promoção de políticas para o crescimento econômico e desenvolvimento inclusivo.

A UNWTO com o intuito de oferecer estratégias para o desenvolvimento do turismo como uma força motriz para o crescimento econômico, desenvolvimento inclusivo e à sustentabilidade ambiental adotou os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que são 17 estratégias voltadas à ações para erradicar a pobreza, proteger o planeta e garantir que todas as pessoas desfrutem da paz e da prosperidade, conforme apresentadas na Figura (06).

Figura 06: Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

Fonte: ONU, 2020


As 17 estratégias propostas pela ONU e adotadas pela UNTWO, são importantes para promover uma sociedade mais igualitária, unificada e sustentável. São ações concretas que visam trazer a cooperação mútua entre indivíduos, entidades públicas e privadas. O turismo tem um papel de destaque nesse processo, como aponta Rua (2006), a atividade opera pela ruptura do isolamento, provocando o contato entre diferentes culturas e ocasionando interações de múltiplos e variados atores.

Com isso, apenas com a integração de múltiplas áreas do conhecimento poderá se atingir uma sociedade global mais igualitária e desenvolvida. Acredita-se que a maior contribuição de se estudar os deslocamentos humanos, turismo, para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável seja o que se refere ao de número 16: “Paz, justiça e instituições fortes”, como observado na Figura (06).

O item 16 (dezesseis), diz respeito a justiça pela paz, e o mesmo tem grande relação com o turismo, como verificado na Figura (07), já que a atividade turística gira em torno de bilhões de encontros entre pessoas de diversas origens culturais, o setor pode promover a tolerância e compreensão multicultural e inter-religiosa, estabelecendo as bases para sociedades mais pacíficas. O turismo, que beneficia e envolve as comunidades locais, também pode consolidar a paz em sociedades pós-conflito.


Figura 7: Turismo e a Paz

Fonte: Elaborado pelo acadêmico com base nos autores citados até o momento


O turismo gira em torno da experiência gerada pela troca entre o viajante, o ambiente e a comunidade local, com seus hábitos e costumes que compõe a sua cultura. O turismo é uma mão de via dupla, leva e traz conhecimento e aprofundamento, isso quando a comunidade está pronta para partilhar e o visitante para receber.

Nessas condições, o papel do turismo se torna tangível no diálogo, nos gestos na observação, no aprendizado. É muito importante a existência da tolerância, respeito e compreensão das diferenças. Para isso, precisa-se incentivar atos de alteridade, sendo necessário conhecer a cultura do próximo, adentrando-a.

Porém, como visto, o turismo como fruto do capitalismo não é acessível e sem a presença de políticas públicas que impulsionem a inclusão de uma maior parcela da população à pratica de viagens, muitos ainda se veem limitados a usufruírem de seus benefícios intangíveis.

O turismo em si é mais do que uma atividade econômica, consigo carrega a história e o legado dos deslocamentos, o significado das trocas socioculturais para a transformação e desenvolvimento da espécie. Em um modelo capitalista, voltado ao acúmulo, muitas vezes não é evidente os aspectos intangíveis da atividade, ou são de difícil mensuração, em grande parte, pois o foco se concentra nos indicadores econômicos.

Porém, afastando-se por um momento da espécie humana e voltando o foco sobre os demais animais, percebe-se a importância dos deslocamentos às transformações culturais e a construção de novos saberes e modos de se fazer as coisas. No ano de 2009, Garland et al (2013), observou que um grupo de baleias Jubartes na costa da Austrália desenvolveu um tipo de canto específico em relação a outros grupos de baleia jubartes estudados.

Em 2010, ao migrarem para um local de alimentação comum, próximo a Antártida, e se juntar com outros grupos de jubartes, constatou-se que o som que antes era apenas cantando pelo grupo de jubartes da Austrália foi transmitido aos outros grupos, sendo um que desses outros grupos retornou para o seu habitat cantando a música que correspondia as baleias da Austrália e outros modificaram seu próprio canto.

Os estudos de Garland  et al (2013), quando relacionados ao modelo de turismo praticado pelos humanos, demonstram os deslocamentos como precursores de revoluções culturais. Após análise do comportamento animal, pôde-se resgatar os aspectos intangíveis e de difícil mensuração do turismo contemporâneo.

Dessa forma, critica-se o fato de até os dias atuais viagens serem vistas como algo supérfluo e não como agente de mudanças sociais, com isso, percebe-se que as pessoas que mais viajam possuem mais conhecimento de vida e visões sobre como inovar, assim como as baleias que se deslocam pelo mar e realizam trocas culturais com as demais de sua espécie.

Porém, ainda hoje no Brasil há grandes bolhas sociais, que impedem o contato entre os mais diferentes indivíduos, isso por conta das desigualdades. Investimentos em lazer e cultura, por parte dos poderes público e privado, poderia atrair diferentes indivíduos para um local, incentivando o diálogo com a comunidade com o intuito de desconstruir pensamentos sociais e assim conseguir buscar a paz. 

De acordo com Sant’Anna (2017), os shoppings, por exemplo, podem ser vistos como um espaço de lazer com acesso democrático, o qual é frequentado pelos mais diferentes indivíduos, porém, o foco se concentra na obtenção de capital, deturbando a realidade ao se destinar aqueles com maior poder aquisitivo, o que acaba por aprofundar ainda mais as desigualdades sociais.

Nesse ponto, pode parecer utópico falar em acesso ao turismo, sendo que até mesmo o lazer é segredado no Brasil a determinados indivíduos mediante à classe social. Porém, incentivar o debate do turismo como forma de inclusão e transformação social, visa trazer aprofundamento das políticas sociais em turismo no país. Espera-se o dia onde mais indivíduos possam viajar e ao retomar a sua localidade comecem a ser um agente da mudança em sua comunidade, integrando saberes e conhecimentos distintos na realidade presenciada.

Assim, no Brasil “surgem novos trabalhos que procuram interpretar a dinâmica do turismo a luz de sua condição periférica no capitalismo mundial, reconhecendo as semelhanças, mas também as especificidades ao turismo europeu ou norte-americano” (CASTRO; GUIMARÃES; MAGALHÃES, 2013, p. 7). Considera-se que o turismo possui diversas ramificações sociais as quais quando bem planejadas, trazem impactos positivos a todos os setores de uma comunidade.

Brasileiro, Medina & Coriolano (2012), defendem o turismo comunitário, sendo desenvolvido de baixo para cima, incluindo em áreas com potencial turístico a comunidade no processo. Verifica-se, que com o desenvolvimento tecnológico e a ascensão de plataformas voltadas exclusivamente para turistas, como o Airbnb, a comunidade pôde começar a se beneficiar mais da demanda turística, que se bem planejado, pode trazer uma melhor divisão de riqueza através do turismo. Porém, ainda faltam iniciativas para o turismo social, como aponta o próprio Ministério do Turismo (2019, p. 20):

[...] turismo social não é desenvolvido pela iniciativa de órgãos públicos como ocorre na maioria dos países da Europa e em vários da América Latina; as iniciativas são incipientes, restritas a algumas instituições voltadas para o bem-estar social, como o Sesc, associações de classe e sindicatos, que criaram colônias de férias para utilização dos seus associados e familiares, principalmente os de menor poder aquisitivo.

Portanto, verifica-se que o país carece de uma melhor política em turismo que vise uma maior democratização da atividade. No ano de 2019 entrou em vigência um novo PNT (Plano Nacional de Turismo, 2018), o qual em seu art. 4.4.3 consta a diretriz: “Possibilitar o acesso democrático de públicos prioritários à atividade turística”. No Quadro (01), detalha-se as estratégias propostas pelo Ministério do Turismo para a realização dessa iniciativa.


Quadro 01: Desenvolvimento do Turismo Social pelo Mtur

OBJETIVO

DETALHAMENTO

DIRETRIZES

ESTRATÉGIAS

 

Definir as diretrizes para o desenvolvimento do turismo social

 

Democratizar e propiciar o acesso ao turismo no país a todos os segmentos populacionais, contribuindo para a elevação do bem-estar geral, e reduzir as disparidades sociais e econômicas de ordem regional, promovendo a inclusão social pelo crescimento da oferta de trabalho e por uma melhor distribuição de renda.

 

Elaboração de políticas de incentivo às viagens daqueles que, pelos mais variados motivos (renda, preconceito, alienação), não fazem parte da movimentação turística nacional.

Capacitação Continuada

Identificação e avaliação de programas, metodologias, mecanismos e oportunidades de parcerias;

Formulação de plano de capacitação para e pelo turismo;

Promoção de ações para o aperfeiçoamento profissional dos trabalhadores inseridos nos grupos que compõe o recorte do turismo social;

Promoção de ações de capacitação para os diferentes atores que compõem a oferta e a gestão do turismo no território.

Apoio e promoção a eventos locais, regionais, nacionais e internacionais

Informação e comunicação

Realização de estudos e pesquisas sobre turismo social no Brasil e demais países.

Criação de rede de informação e intercâmbio de experiências.

Sensibilização e conscientização da sociedade e do empresariado do turismo

Incentivos

Identificação de fontes de cooperação técnica e captação de recursos financeiros.

Fomento e apoio a iniciativas de pequenos e microempreendedores.

Promoção e comercialização

Produção de Guia do Turismo Social.

Identificação dos agentes de turismo com interesse para trabalhar com turismo.

Desenvolvimento e sustentabilidade do território e do setor

Garantia de participação das comunidades locais nos processos decisórios acerca do planejamento e implementação de projetos turísticos.

Manutenção de infraestrutura adequada e definição de critérios de acessibilidade para alocação de recursos destinados ao financiamento de infraestrutura.

Incentivo à realização de estudos e mecanismos de controle e monitoramento que garantam a sustentabilidade do território e a atividade turística responsável

Criação de incentivos à oferta de produtos e serviços de qualidade associados ao turismo social.

Identificação dos integrantes da cadeia produtiva do turismo e estímulo à inclusão de novos atores no turismo social brasileiro com potencial para expansão da atividade.

Diversificação da oferta a partir das potencialidades locais.

Desenvolvimento do turismo pedagógico.

Governança

Fomento à criação e fortalecimento de instâncias de governança.

Fortalecimento das parcerias entre setor púbico e setor privado.

Empoderamento das lideranças empresariais e lideranças representativas da sociedade civil organizada.

Fonte: Organização pelo acadêmico com base nos dados do PNT (2018) e Ministério do Turismo (2019)


Como visto no quadro acima, o Ministério do Turismo possui o objetivo de tornar democrática a atividade turística através do turismo social, porém, as estratégias adotadas para tanto, muitas vezes, ainda ficam aquém para promover um turismo mais inclusivo, principalmente no que se refere ao fator renda. Dessa forma, verifica-se a necessidade de ação conjunta às demais áreas sociais.

Com isso, verifica-se a necessidade de políticas públicas que visem um melhor nivelamento social, onde a filha da camareira tenha as mesmas oportunidades que a filha da gerente do hotel. Onde ambas recebem uma educação de qualidade e dentro de suas limitações econômicas vigentes possuam oportunidade de viajar, ir ao cinema, teatro, enfim, não limitarem a sua formação como pessoa apenas ao fator renda.

Acredita-se que somente assim haverá mais igualdade entre seres humanos e as diversas espécies que habitam o ambiente; onde não se deixará que a sociedade trace o destino de uma criança ao nascer negra e em uma família com menor nível de renda; onde se tenha igualdade de gênero, inclusive com a inclusão das travestis e transexuais no mercado de trabalho; onde se tenha consciência que mais importante que o ouro, petróleo, dinheiro ou qualquer outro recurso material, seja a oportunidade de celebrar uma sociedade em paz.

 E o turismo, quando desenvolvido em sua essência social, pode ser ferramenta para alcançar esse objetivo, bastando para isso um planejamento efetivo. Esse planejamento deve visar reduzir impactos negativos, com isso, além de políticas de nivelamento, que ofertem melhores condições educacionais e oportunidade de mobilidade nos estratos sociais, verifica-se a necessidade de ações especificas no que tange o setor turístico.

Essas ações devem garantir a preservação do patrimônio histórico-cultural e do meio ambiente, além de um desenvolvimento ordenado da atividade, o qual deve evitar a gentrificação e promover a integração com a comunidade local. Com isso, o turismo será ferramenta do progresso e uma indústria forte e solidificada na sociedade brasileira, atuando de para o desenvolvimento da nação.

Na análise do fenômeno turístico, os lugares atrativos são “descobertos” e incorporados pelo mercado, transformando-o em um produto econômico logo em seguida saturado pelo turismo de massa e substituídos por novos lugares. Assim, existe um excesso do turismo de massa, ou da democratização do turismo e a consequente popularização dos lugares turísticos, transformam de forma perversa as localidades receptoras. Quanto mais próximo, mais atraente ou acessível aos centros emissores mais rapidamente o esgotamento de um lugar, despertando no turismo de mercado a necessidade da descoberta de um novo lugar/produto (BEZERRA, 2009, p. 11).

Para Brasileiro, Medina & Coriolano (2012, p.89), “no turismo de massa, os destinos turísticos travam uma grande concorrência entre si, destruindo, na maioria das vezes, os valores socioculturais e ambientais do lugar, em detrimento de ganhos econômicos”. Assim, entende-se que o turismo de massa além de concentrar a renda sobre poucas empresas, gerando maior desigualdade, acaba por trazer impactos negativos ao patrimônio sociocultural da localidade.

Para o pleno desenvolvimento de um turismo mais igualitário e ambientalmente sustentável, faz-se necessário políticas públicas que visem a salvaguarda e a democratização dos espaços de lazer e das viagens. Sendo interessante destinos cativar no viajante o afinco de pensar como a realidade presenciada pode ser trabalhado em sua comunidade local. Dessa forma, o turismo ganhará ainda mais sentido.

Como exemplo de política pública que visa uma democratização dos espaços de lazer e das viagens, ressalta-se o programa do Governo Federal ID jovem, o qual fornece gratuidade em passagens rodoviárias interestaduais e eventos culturais como: shows, cinemas, teatros, museus, circos, entre ou para jovens de baixa renda. Isso proporciona a inclusão e ressalta a importância do acesso dos jovens à viagem e à cultura.   

Outro programa voltado a viagens e que no futuro pode ser melhor aproveitado pelos brasileiros de todas as classes sociais são os chamados “Work and Holiday Visa”, que permite jovens brasileiros de 18 a 30 anos viajar por diferentes países e trabalhar para se sustentar durante o período. Cada país é responsável por elaborar a regras e condições de concessão. Atualmente o Brasil já possui relações bilaterais para essa modalidade de visto com 03 países, sendo eles: Alemanha, França e Nova Zelândia.

Espera-se que em breve mais países possam desenvolver esse tipo de relação com o Brasil, assim, haverá uma grande redução nos custos de um intercâmbio, possibilitando um maior número de jovens conhecer novas culturas e obter os benefícios intangíveis da atividade turística.

Após esses 3 capítulos apresentando dados e conceitos sobre a temática das desigualdades sociais, ressalta-se que nem sempre, nem mesmo nas academias, teve-se essa maneira de pensar, com isso, faz necessário se destacar alguns dos estudiosos que se dedicaram a defender e explicar o básico de se esperar: a igualdade entre os seres humanos. Com isso, o próximo capítulo, apresenta alguns autores que voltaram seu foco à desigualdade tanto ela de forma geral como aplicada ao turismo.

 

5.4 Análises cientificas à convergência entre turismo e desigualdades sociais

E da natureza humana buscar a integração com o meio e com aqueles a sua volta, seja de forma harmônica ou como se pôde presenciar no decorrer da história a brutalidade e imposição. Verifica-se que houve uma lenta e grande transformação, no decorrer do tempo, no modo como se dá a relação dicotômica entre os seres humanos e o seu meio.

“Não é possível afirmar exatamente o período de surgimento da pobreza no mundo. Contudo, está evidente que esse fenômeno acompanha o ser humano desde suas origens” (CARVALHO, 2018, p. 140). A autora destaca que as forças produtivas vinculado à condição de escassez coloca os homens em condição de extrema pobreza.

Dessa forma, os seres humanos buscaram técnicas que tornasse mais fácil a extração dos recursos naturais e dos atributos à sobrevivência. Nesse contexto, o conhecimento atua como fator de diferencial e progresso, possibilitando o desenvolvimento social e impactando na forma como se dá a relação com o meio inserido.

Desde a idade moderna, o conhecimento está cada vez mais concentrado, sendo as universidades uma das maiores intuições responsável por moldar o mundo e revolucionar o pensamento, trazendo novas tecnologias e modos de agir em sociedade. O conhecimento atualmente é sistêmico e integrado, onde diferentes áreas se comunicam.

A sociedade, objeto de estudo das ciências humanas, por estar sempre em transformação, muitas vezes acaba por ter uma análise complicada e com algum grau de contradição, porém, o método cientifico auxilia no desenvolvimento do conhecimento. Assim, teóricos conseguem traçar possíveis diretrizes ao desenvolvimento das questões sociais.

Ressalta-se que as mudanças trazidas através das ciências humanas, muitas vezes, só são efetivas quando aplicadas na forma de lei, o que pode levar um longo período, até o assunto ser entendido e discutido em sociedade, além de passar pelos tramites burocráticos do legislativo.

De acordo com Coutinho (2017), as teorias do desenvolvimento econômico, até poucos anos, negligenciavam os impactos diretos ou indiretos da pobreza e da desigualdade social à performance econômica dos países. Dessa forma, muitas vezes a pobreza foi abordada indiretamente como, por exemplo, através de investimentos públicos em empresas com a justificativa de geração de empregos, carecendo de estratégias efetivas de combate às desigualdades.

No Brasil, a Constituição promulgada em 1988, inclui-se o reconhecimento, pela primeira vez numa Carta constitucional brasileira, da diversidade cultural e da pluralidade étnica com os respectivos desdobramentos relativos a direitos de grupos minoritários na sociedade.

Nesse contexto, cabe destacar a grande produção legislativa recente – decorrente dessa legislação constitucional – voltada para a proteção e o desenvolvimento de tratamento mais apropriado para os setores antes marginalizados ou carentes. Por exemplo, estão em vigor atualmente estatutos como o da Criança e do Adolescente, o do Idoso, além das leis especiais referentes aos deficientes físicos e à cota eleitoral que incentiva a inclusão de mulheres no Legislativo. Além disso, as políticas públicas desenvolvidas para tratar das questões de gênero, da população indígena, da igualdade étnica, do meio ambiente, entre outras (TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE), 2020, p. online).

De acordo com o TSE (2020), ainda há um longo caminho, mas o país caminha para melhores indicadores nas questões sociais, econômicas e políticas. O conhecimento cientifico possibilitou de forma direta, seja através de suas obras ou na formação dos profissionais, o contínuo desenvolvimento da sociedade. Porém, esse foi um processo histórico, que advém dos esforços de muitos estudiosos por uma sociedade mais justa e igualitária.

De acordo com Michelotto (1997), o estudo das desigualdades já um desafio a pensadores desde o tempo dos clássicos Gregos. Aristóteles, por exemplo, trouxe avanços além do seu tempo às ciências. Porém, limita-se no que concerne o regime escravista, por ser algo tão presente em sua realidade, não conseguia ir além da barreira representada pela escravidão, acabando por justifica-la.

Com isso, percebe-se que o conhecimento social é algo mutável. E as mudanças na forma de pensar em sociedade foram importantes para hoje, por exemplo, poder estabelecer metas de acessibilidade para atividades socioeconômicas como o turismo. Dessa forma, no Quadro (02), apresenta-se teóricos que contribuíram e os que ainda continuam contribuindo ao entendimento das desigualdades sociais no mundo e no Brasil.

Ressalta-se que não há intenção de se limitar aos nomes citados, considerando-se que um estudo sociológico é formado através da troca cultural entre pesquisador e objeto de estudo, assim, diversos são os agentes que contribuem em uma análise.

 

 

Quadro 02: Contribuições cientificas ao entendimento das desigualdades sociais

AUTOR

OBRA

ANO

CONTRIBUIÇÃO

FONTE

Jean Jacques Rousseau

Extensa

1755

Separação do homem entre o seu estado de natureza e social. Coloca a propriedade privada como razão das desigualdades sociais. Sugere que os problemas sociais podem ser resolvidos na esfera política, oferecendo atenção aqueles que estão desassistidos.

Ferreira

(2019)

Immanuel Kant

Crítica da Razão Pura

1781

O igualitarismo na doutrina e na prática jurídica.

Gonçalves (2015)

Georg Hegel

“Princípios

da

Filosofia do Direito”

1821

Pobreza como fruto da

concentração da  riqueza  e  da  desigualdade  social  em uma  referida  sociedade

Safatle (2012)

Karl Marx

Extensa

1836 em diante

Coloca a divisão social do trabalho e o conceito de “mais-valia” como razão das desigualdades, onde há aqueles que produzem riqueza e aqueles que apenas a acumulam.

Reis (2000)

Emile Durkhein

Extensa

1887

em diante

A vida em sociedade é motivada pelas diferenças e limitações dos indivíduos, portanto, acreditava que uma sociedade de desiguais interdependentes tornava a todos moralmente iguais, posto que igualmente dependentes do todo social.

Reis (2000)

Max Weber

Extensa

1889

em diante

As desigualdades sociais têm fontes diversas e não necessariamente convergentes, auxiliando a alterar padrões a partir de através de políticas específicas.

Reis (2000)

Gilberto Freyre

Extensa. Principal: “Casa grande e Senzala”

1933

Formação da sociedade brasileira, através da miscigenação étnica e de classe

 

Raul Prebisch

O Desenvolvimento Econômico da América Latina e seus principais problemas

1950

Demonstra como a exploração colonial impactou no desenvolvimento de países que outrora foram colônias, tendo o seu foco sobre a América Latina.

Coutinho (2017)

Celso Furtado

Extensa

1961 em diante

Tem como foco o problema da má distribuição da renda e da propriedade, herdada da colônia, do escravismo e do

primário exportador, e agravado na industrialização

Cano (2015)

Thomas Skidmore

Extensa

1966

Em diante

Analise cientifica internacional da história e do desenvolvimento brasileiro

Coutinho (2017)

Thomas H. Marshall

Cidadania, classe social e status

1967

a desigualdade pode ser aceitável, desde que a igualdade da cidadania seja reconhecida. Através do direito civil, do político e do social.

Fernandes e Paludeto (2010)

John Raws

A theory of justice

1971

Justiça como fator de equidade. Ressalta três preocupações principais: as discriminações (raça, sexo), as vantagens hereditárias sobre a posse e meios de conseguir oportunidades, e talentos naturais.

Rosas (2013)

José Pastore

Desigualdade e Mobilidade Social no Brasil

1979

Auxilia na compreensão sobre a mobilidade social no Brasil, onde “ muitos sobem pouco e poucos sobem muito”.

Pastore (1976)

Amartya Sen

On ethics and economics

1988

Analise ética da economia, onde dialoga com as desigualdades como fatores que comprimem, quando não anulam, as liberdades efetivas em um mundo onde grandes progressos materiais foram alcançados.

Kerstenetzky (2000)

Nico Sther

Knowledge societies

1994

O monopólio do conhecimento como instrumento por excelência de desigualdade. Explica o modo como o conhecimento, entendido como capacidade para a ação, se insere no processo de formação das desigualdades na sociedade moderna.

Sther (2000)

Fonte: Organização Acadêmico, 2020


Entende-se, de acordo com Reis (2000), que os atuais estudos da temática, embora com diferentes abordagens e instrumentos de análise, são herdeiros legítimos da tradição clássica, tanto no que diz respeito à inspiração teórica, como no que concerne à rejeição moral explícita ou implícita às injustiças distributivas.

Tanto as teorias clássicas da desigualdade como suas derivações mais modernas desenvolvem temas que manifestam um interesse comum na natureza vertical dos estratos ou classes sociais e na relação de indivíduos ou grupos com distinções de propriedade e seu preço, inclusive em termos de salários derivados da propriedade da força de trabalho. A consequência da premissa básica das teorias da desigualdade nas sociedades industriais é que, em última análise, a origem e a legitimidade das hierarquias sociais são sempre referidas ao processo produtivo e sua organização. A implicação óbvia disso é que a desigualdade se torna uma função direta, e frequentemente indireta, da relação do indivíduo com o trabalho ou o capital e seus ganhos, na forma de renda monetária, juro, aluguel e lucro. A identidade dos indivíduos é mediada, quando não determinada, por sua relação com o processo de trabalho. Os estratos e classes sociais são formados da mesma maneira. Em suma, tanto as abordagens marxistas quanto as não-marxistas sugerem que a sociedade industrial ainda é, primordialmente, uma sociedade do trabalho [...]. Isso leva os cientistas sociais a pensar, pelo menos no caso da análise da desigualdade social em algumas sociedades contemporâneas, que as hierarquias sociais ainda "são predominantemente constituídas mais pela classe do que por outras formas de clivagens sociais, independentemente de os fenômenos em exame serem de natureza estrutural ou cultural (STEHR, 2000, p. 103).

De acordo com Moutinho (2015), muitas das recentes reflexões acerca da produção da diferença e da análise da desigualdade social vêm investindo na articulação entre os chamados "marcadores sociais da diferença". Atualmente a intersecção entre etnia, nação, sexualidade e gênero ganha destaque. A Figura (08) apresenta uma síntese do que vêm sendo abordado até o momento.

 

Figura 8: Estudo das desigualdades

Fonte: Elaborado pelo acadêmico com base nos autores citados até o momento


Com isso, no que tange ao turismo e as desigualdades sociais, verifica-se a importância de resgatar uma síntese de obras que auxiliaram no entendimento da convergência entre os dois assuntos, assim, poder evidenciar e discutir, em curto e longo prazo, os impactos das desigualdades ao turismo. Com isso, no Quadro (03), apresenta-se os estudos que convergem desigualdades sociais e turismo.

Quadro 3: Contribuições cientificas ao entendimento da convergência entre turismo e desigualdade sociais (continua)

AUTOR

OBRA

ANO

Análise

Organização Mundial do Turismo

Bibliografia extensa

Desde de

1974

Contribuição ao planejamento estratégico de uma atividade turística mais inclusiva e responsável.

Ministério do Turismo

Plano Nacional de Turismo;

 

Diretrizes para o desenvolvimento do turismo social;

 

Bibliografia extensa;

 

Desde de

2003

Contribuição ao planejamento estratégico de uma atividade turística mais inclusiva e responsável.

Oliveira Santos

Economia do Turismo

2013

Considera o consumo de viagens domésticas no Brasil um produto normal, quanto maior a renda, maior a demanda.

Castro; Guimarães; Magalhaes

História do turismo no Brasil

2013

Dialoga com o turismo brasileiro a luz de sua condição periférica no capitalismo mundial, reconhecendo as semelhanças, mas também as suas especificidades em relação ao turismo europeu ou norte-americano.

Macedo; Oliveira

Turismo e sociedade

2010

Turismo como um privilégio econômico, sendo reflexo das desigualdades sociais

Cruz

Políticas de Turismo e Território

2001

Turismo como agente de concentração  de renda, exclusão e perpetuador das desigualdades socioespaciais.

Brasileiro, Medina & Coriolano

Turismo, cultura e desenvolvimento

(2012)

Turismo no padrão capitalista reproduz o modelo de consumo ao se apropriar do lazer e do tempo livre.

Medeiro; Menezes

As viagens da favela e a vida social dos suvenires

2016

A transformação da favela  em destino turístico e em marca se trata de um processo complexo e contraditório, no qual a pobreza adquire um valor de troca no mercado globalizado.

Ferreira; Casagrande

Movimentos, tecnologia e pessoas negras: é possível um outro turismo?

2020

Crítica acerca das vivências/experiências de pessoas negras no turismo.

Leitão

Turismo solidário e valorização da mulher

2007

Discute a valorização da igualdade entre mulheres e homens através do turismo.

Avena; Rossetti

Homossexualidade, consumo, cidadania e hospitalidade

2004

Discussão sobre hospitalidade, cidadania e turismo a partir do consumo e homoafetividade

Fonte: Organização Acadêmico, 2020


Percebe-se que há uma quantidade considerável de estudos turísticos focados nas desigualdades sociais como, por exemplo, na inclusão de mulheres, idosos, LGBTQIA+ e etc. Verifica-se também que o foco desses estudos, em sua maioria, é sobre a preparação dos destinos turísticos para receber dado público em especifico.

Muitos estudos também não tem o seu foco sobre o fator renda, apenas considera a demanda já existente e potencial, excluindo desses indicadores aqueles que não possuem condições financeiras. Porém, sob o modelo econômico vigente, infelizmente, ainda não se pode apontar esses estudos como falhos, pois, aquele que não possui renda, logo, não viaja.

Os estudos que possuem seu foco sobre a convergência entre turismo e desigualdades sociais de forma abrangente, como por exemplo, os citados pela Organização Mundial do Turismo e pelo Ministério do Turismo, contribuem ao entendimento do assunto, porém, em sua grande maioria, abordam o turismo sem adentrar o modelo capitalista de consumo presente na sociedade. Assim, o turismo se apresenta como atividade econômica ideal, sem apresentar os impactos negativos da atividade.

Dessa forma, percebe-se que algumas análises voltadas às desigualdades sociais são focadas unicamente no turismo, nas oportunidades de trabalho gerados pelo setor, no desempenho econômico da atividade, na melhor prestação dos serviços e etc. Porém, não demonstram o turismo como próprio fator gerador de desigualdades. 

Alguns estudos atuais vêm trazendo ao palco da discussão questões étnicas, assim, conseguindo abranger um espectro maior no que tange às desigualdades sociais e o turismo. Porém, ainda não há uma quantidade expressiva de estudos voltados a essa temática de inclusão da população negra à atividade.

 


 

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Brasil é um país com uma grande riqueza natural, sendo composto por um extenso litoral, diversos biomas, diversidade naturais, sítios históricos e uma cultura autóctone, que se diferencia de norte a sul. Com a presença de tantos atrativos, poderia ser constatada a possibilidade de desenvolvimento do turismo, ainda mais com o interesse dos brasileiros por viagens. Porém, como visto, conhecer o próprio país ainda não pode ser a realidade de todos, em grande parte, por conta das desigualdades sociais.

Verificou-se que os deslocamentos humanos foram fator primordial para sobrevivência e transformação do modo de vida dos seres humanos ao longo da história, seja de forma harmônica ou como se pode presenciar no decorrer do tempo a brutalidade e imposição, sendo o conhecimento sempre o fator de diferencial e progresso.

Percebe-se que as desigualdades estão presentes na sociedade estruturalmente desde o momento que a humanidade passou a dominar as técnicas agrícolas e nem todos precisaram trabalhar para manter a sua sobrevivência. Ainda não há dados concretos, mas se pode levantar a hipótese que a ideia social da existência dos homens-deuses, como era o caso dos grandes faraós egípcios, pode ter se originado pelo o fato de seus antepassados possuírem algum domínio das técnicas agrícolas. Algo altamente tecnológico para o paleolítico. Dessa forma, reinos foram se desenvolvendo, e a riqueza foi construída sob esse conhecimento.

No Brasil, as desigualdades também caminham sobre a história do país, a qual é contada por uma elite branca que assumiu o poder e escravizou índios, africanos e os descendentes, marcando profundamente a estrutura sociopolítica e espacial do país. O fato de as colônias latino-americanas serem voltadas à exploração para o enriquecimento da coroa foi a principal razão para fatos como esse terem ocorrido.

Dessa forma, verifica-se que o tema da desigualdade social atual é muito complexo, porém, igualmente importante para se tralhar em políticas públicas para trazer uma maior inclusão à sociedade, assim, garantir um desenvolvimento sustentável e igualitário a todos.

Porém, a realidade do Brasil, ainda está distante de um nível ético e moralmente aceito para um país se considerar desenvolvido, a estratificação presente em território nacional, ainda delimita aqueles que terão acesso à recursos básicos, como saúde, educação, alimentação, moradia, e etc.

Nesse contexto, falar sobre inclusão à atividade turística se torna um verdadeiro desafio, principalmente porque a atividade assume atualmente a sua característica capitalista, onde o lucro e valorizado acima de tudo. Com isso, há uma grande importância em ressignificar o turismo, aproximando-o de seus valores impares e intangíveis.

Ressalta-se como limitação à produção do presente estudo a falta de acesso a materiais bibliográficos acadêmicos presentes em uma maior quantidade de livros físicos, por conta da pandemia causada pelo Corona Vírus, muitas bibliotecas se encontravam fechadas.

Porém, em relação aos objetivos, considera-se que houve sucesso ao conseguir evidenciar como a desigualdade social interfere no desenvolvimento do turismo a partir do estabelecimento de nexos entre o turismo e a desigualdade social, da conceituação de estratificação social e seu impacto na sociedade moderno e da discussão do turismo como atividade capitalista responsável por exclusão social.

Dessa forma, espera-se humildemente ser capaz de contribuir dentro das limitações à discussão acadêmica sobre a interferência do turismo nas desigualdades sociais. Porém, sugere-se que mais pesquisadores se debrucem sobre o tema e auxiliem em uma atividade mais democrática e inclusiva para todos.

Verifica-se que há carência de estudos focados realmente nos impactos sociais do turismo ser restrito a uma pequena parcela da população mediante o fator renda, como por exemplo, nas perdas culturais e de saberes que possam estar ocorrendo mediante essa barreira econômica.

 

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