top of page

Ideia para filme: “Joyce”



O telefone toca numa tarde comum. Do outro lado da linha, uma voz animada e conhecida fala de uma viagem diferente: um grupo pequeno, pessoas que ainda não se conhecem, um ônibus atravessando a noite rumo a uma cidade antiga, cercada por mata. Ele hesita por um segundo, mas aceita. Há algo na proposta — o improviso, o desconhecido — que parece necessário.


A viagem começa leve. Risadas tímidas viram conversas longas, histórias pessoais surgem no embalo do motor constante. No ônibus, tudo é provisório e confortável ao mesmo tempo. Chegando à cidade, o hotel parece simples, mas funcional. Como combinado, todos dividem quartos com desconhecidos. No início, o clima é curioso, quase divertido — trocar nomes, dividir tomadas, comentar sobre o calor, sobre a paisagem.


Mas aos poucos, pequenas estranhezas começam a surgir.


No banheiro, ele percebe que o creme de cabelo tem um cheiro diferente, mais forte, quase químico. O desodorante também não é o mesmo que trouxe. Um dos colegas comenta casualmente que “alguns produtos daqui têm compostos diferentes”, como se fosse normal. A frase fica no ar, sem explicação.


O hotel é um lugar estranho. Dentro dele há uma pequena estação — como se trens ou ônibus pudessem sair dali a qualquer momento — além de lojinhas improvisadas. Em uma delas, vendem fatias de bolo por um real. O ambiente é escuro, com uma iluminação fraca que não chega a iluminar completamente os rostos. Ainda assim, há movimento, gente comprando, conversando baixo.


Ele começa a se sentir deslocado.


No quarto, percebe algo ainda mais inquietante: sua camiseta não é mais a mesma. Antes havia um pequeno nome no canto esquerdo. Agora, o nome é outro — maior, mais visível. Ele não se lembra de ter trocado de roupa. Confuso, sai procurando uma mulher que estava no quarto, convencido de que ela pode ter pego suas coisas por engano. Quando a encontra, antes mesmo de falar, um senhor se aproxima com a peça nas mãos.


“Foi um bug no sistema”, ele diz, com naturalidade.


Ele entrega a camiseta “correta”. Mas isso não faz sentido. Ele não lembra de ter trocado. Nem de existir “um sistema” ali.


Antes que consiga processar, tudo muda.


A polícia invade o hotel. Homens armados, vozes firmes, portas sendo abertas à força. Alguém passa por ele, faz um gesto rápido — um piscar, um sussurro: “fica calmo, age normal”. Como se aquilo fosse apenas mais um protocolo.


Mas não é.


O ambiente fica pesado. Alguns são levados para a delegacia. Ele tenta acompanhar o grupo, mas no meio da confusão se perde. Quando percebe, está sozinho. A cabeça gira. Não sabe se foi algo que usou, inalou ou ingeriu — mas seus sentidos estão alterados.


Ele sai para a rua.


A cidade parece diferente agora. Mais vazia. Mais lenta. Como se estivesse assistindo tudo através de um filtro.


Sem direção, entra na mata.


A floresta é densa, viva, e silenciosa de um jeito estranho. É ali que ele vê as figuras — pequenas, como crianças. Caminham entre as árvores com naturalidade. Ele se aproxima, ainda tentando manter alguma lógica.


“Vocês precisam de ajuda? Cadê seus pais? Isso aqui é perigoso…”


Elas param.


E então uma delas avança.


“Meu nome é Joyce”, diz, com uma voz firme demais para aquele corpo pequeno. “E esses são meus filhos.”


Ele tenta entender.


“Mas… quantos anos você tem?”


“Trinta e dois.”


“E quantos filhos?”


“Cem.”


O mundo parece inclinar.


Mesmo assim, algo nele se acende — curiosidade, talvez ambição. Aquilo precisa ser mostrado. Documentado. Ele fala em ajudar, em revelar aquilo ao mundo. Joyce escuta, mas nega.


“Não mostramos nossos rostos.”


Ela então sobe sobre um humano maior que surge entre as árvores — um corpo alto, quase sem expressão. Sobre ele, coloca adereços, ornamentos, criando uma figura híbrida, imponente, quase divina.


Ele recua, irritado.


“Não. Isso não é real. Eu não vou mostrar isso. Eu quero a verdade.”


O ar muda novamente.


Um som distante cresce. Máquinas. Luz. A mata se abre e, por um instante, parece que um exército surge — tanques com detalhes dourados, reluzindo sob uma luz intensa demais para ser natural. Tudo fica brilhante, quase sagrado, quase artificial.


E então… silêncio.


A última parte não é caos. É ritual.


Ele está deitado, imóvel, sendo carregado por uma estrutura elevada. Ao redor, a tribo se reúne. Pequenos corpos, muitos, organizados, atentos. Cantos ecoam pela floresta. Não há pressa. Não há desordem.


Joyce está no centro.


Ela ergue o olhar e fala com clareza, como se cada palavra fosse parte de algo muito antigo.


“Agradecemos a Deus pelo alimento que nos foi dado hoje.”


A tribo responde em uníssono.


Ela continua:


“Se não fosse por isso, teríamos que entrar em guerra. E ainda não estamos preparados.”


Há um peso na frase. Não é ameaça. É constatação.


A celebração começa.


E enquanto tudo acontece, a floresta permanece ao redor, viva, silenciosa — como se já tivesse visto aquilo muitas vezes antes.

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
CONTATO
whatsapp logo telefone

WhatsApp: +5519987373949

 

SIGA-NOS 

Obrigado pelo envio!

Prazo médio de entrega de agendamento das aulas para as pesquisas é definido mediante acordo firmado com a equipe de vendas. 

© 2020 Your Tutor - Seu orientador pessoal 

Nosso serviço profissional  se consolida como um trabalho de pesquisa e/ou consultoria, dessa forma, deve ser utilizado apenas com o propósito de referência. Todos os materiais adquiridos do site YourTutor, devem ser creditados. Leia nossos Termos Gerais de Uso e nossa Política de Privacidade

bottom of page