Ideia para filme: “20 horas”
- Emersom Franca
- 13 de abr.
- 3 min de leitura

O carro para no meio da estrada, como se tivesse escolhido aquele ponto exato para morrer. Não há sinal, não há movimento, apenas o som do vento passando pelo mato seco. Dois amigos trocam um olhar silencioso. Um decide ficar, cuidando do que restou, enquanto o outro segue a pé em direção à cidade mais próxima, visível apenas por algumas luzes fracas no horizonte.
Ao se aproximar, algo parece estranho. As ruas estão limpas demais, imóveis demais. Nenhum carro passa, nenhuma porta se abre, nenhum som humano ecoa. É como se a cidade tivesse sido abandonada minutos antes de sua chegada. Ele toca o próprio rosto e percebe o sangue seco escorrendo da testa — não lembra exatamente quando se feriu, mas a dor pulsa, insistente. Talvez precise de ajuda. Talvez haja alguém.
O hospital surge no centro da cidade como um bloco antigo, com luzes frias acesas. Lá dentro, o ar é pesado, quase úmido. O silêncio é interrompido apenas por passos distantes e o ranger de macas sendo empurradas. Ele é recebido por enfermeiras de olhar cansado, que o conduzem sem muitas palavras até uma enfermaria. Elas não são exatamente hostis, mas também não são acolhedoras. Apenas fazem o que precisa ser feito.
Sentado, ele observa os arredores. Há outros pacientes, quase todos idosos, alguns imóveis, outros murmurando coisas desconexas. As paredes têm manchas difíceis de identificar. Uma das enfermeiras prepara uma medicação de tom avermelhado, conectando ao soro que ele deve segurar com cuidado, mantendo o braço elevado, como se aquele gesto simples fosse essencial para algo que ele não compreende. Ele tenta perguntar, mas as respostas são vagas, mecânicas.
O tempo ali dentro não parece passar da forma correta. Há momentos em que ele tem certeza de que horas se passaram, mas o relógio não se move. As enfermeiras retornam e dizem que o procedimento não foi concluído, que ele precisa voltar mais tarde, exatamente às 20h. Aquela precisão o incomoda. Ele não responde de imediato, mas dentro de si decide que não voltará.
Ao sair do hospital, a cidade parece ainda mais estranha. A luz mudou, o ar está diferente, como se algo tivesse sido deslocado. Ele caminha sem rumo até encontrar um pequeno restaurante aberto. Lá dentro, idosos servem comida uns aos outros em silêncio, como se repetissem um ritual antigo. Ele passa por uma mesa e vê um homem curvado, quase invisível, até que um pressentimento o faz parar. Há algo nele. Algo importante. O homem pede um lápis. Diz que precisa escrever. Ele então reconhece o rosto, um escritor que costumava ler na adolescência. Sem hesitar, promete todos os lápis que puder encontrar, e por um instante o abraça, como se reconhecesse ali uma parte esquecida de si mesmo.
Ao sair novamente, a cidade se abre em uma rua lateral onde um cemitério se revela. Ele sente que precisa entrar. Não sabe por quê, mas sabe que algo o espera ali. O portão está encostado e ele para em um degrau de pedra clara, quase branca, na rua algumas freiras caminham em silêncio. Ele pergunta por alguém, um nome que não consegue fixar, e é orientado a esperar. Logo chega um grupo de freiras que o conduzem para dentro do cemitério. Sob uma área coberta ele aguarda permissão para prosseguir, mas o céu se encher de urubus, circulando de forma inquieta. Uma das freiras carrega uma maçã, oferecendo-a como se fosse um gesto de apaziguamento, mas as aves não recuam. Pelo contrário, descem com violência, batendo contra o chão, agitando o ar com força e desordem.
Ele hesita. Há algo ali que não permite passagem. Algo que ainda não pode ser acessado. O vento aumenta, os sons se misturam, e por um instante tudo parece desmoronar ao seu redor.
Então, silêncio.
Um bip contínuo corta a escuridão.
Ele abre os olhos.
Está de volta ao hospital.
A luz fria, o cheiro antisséptico, o soro ainda preso ao braço.
Uma enfermeira passa ao lado e diz, quase sem olhar para ele:
“São 20h.”


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